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O modelo de agronegócio

O modelo de agronegócio

Por Jorge Eduardo Rulli

O agronegócio é quem fixa o preço para o produtor, mas quando esse preço cai no portão, não quer dizer que vai descer na gôndola para o consumidor da cidade. Acreditar neste inocente é o engano em que muitos caem ... alguns de boa fé e outros com muito, muito más intenções ...

Preocupa-me poder encontrar explicações para as tensões e conflitos que surgem no campo, e isso me preocupa, porque vivemos numa época em que os modelos hegemónicos que configuram as novas dependências se instalam no meio rural no âmbito do os modelos agroexportadores, e porque a partir daí se projetam para o resto do país, condicionando infalivelmente toda a vida da cidade ... A população urbana desenraizada de suas memórias e com um imaginário cada vez mais ocupado pela publicidade e pela TV. É difícil para ele aceitar essa importância do rural que continua a assimilar com o atrasado, em uma era de capitalismo global, altas tecnologias e relações universais instantâneas. No entanto, esta preeminência do meio rural corresponde aos novos poderes transnacionais que se baseiam na apropriação das sementes e nos mercados internacionais de grãos, no poder crescente das cadeias agroalimentares e supermercados, que se expropriaram da função de alimentar centenas, senão bilhões de seres humanos. Muitos continuam a recusar-se a uma suposta esquerda a reconhecer o valor político dos alimentos, entretanto, já que os discursos e questionamentos de muitos líderes visam desvendar o conflito que inevitavelmente se aproxima: produzir alimentos ou produzir combustível, já que a fonte de Ambos será inevitavelmente , pelo menos se continuarmos neste caminho, a mesma agricultura, e todos temem que não haja possibilidades de abastecer os dois mercados simultaneamente, e entre a necessidade de comer dos pobres e a necessidade de abastecer a fome dos carros de os ricos, é previsível imaginar quem vai ficar na estrada ...


Dissemos que tanto o modelo rural quanto a produção de alimentos industrializados e sua comercialização estão nas mãos do que se chama de Agronegócio, e isso se expressa nas cadeias agroalimentares que se iniciam em um modelo de agricultura sem agricultores, não importa quem é dono o terreno, e que cheguem à nossa mesa na forma de produtos embalados carregados de publicidade, resíduos de pesticidas e conservantes. Este tem sido um processo lento mas implacável de conquista do sector, um processo de apropriação massiva dos mercados, de cooptação e sobretudo de aculturação do produtor, porque persuadir o homem do campo de que se tratava de um agronegócio, e transformá-lo de agricultor a agricultor, pequeno empresário rural, não foi um fato menor, mas decisivo, para poder impor o modelo agroexportador de biotecnologias e dependência de insumos que hoje temos.

E não estamos falando de algo que aconteceu ou que atingiu sua expressão máxima ... não, muito pelo contrário, as últimas informações nos falam de 24 novas favelas, apenas na cidade de Buenos Aires, e segundo estudiosos de o INTA, 8 em cada 10 dos desempregados que os povoam, estão desempregados da agricultura ... O processo de despovoamento continua ...

Ora, se as cadeias agroalimentares são as que dominam o sector da produção e comercialização alimentar, poderíamos muito bem admitir que cada vez que o Governo Nacional tenta resolver alguns dos problemas que ocorrem nesta área estaria a reconhecer e até legitimar que poder do agronegócio. Cada negociação com os donos das grandes redes faz, no máximo, mais do que solucionar os problemas de hoje, mas ao mesmo tempo fortalece o modelo hegemônico do agronegócio e das cadeias agroalimentares. A negociação copular e o modelo de recompensas e punições que se institucionalizou como prática política, entre outras com setores rurais, é algo pior do que tapar buracos, é em última análise uma falta de jeito, fazer doutrina da conjuntura e esquecer o que eles seriam as atribuições indelegáveis ​​da investidura no exercício do Estado. O que quero dizer é que na negociação com o Agronegócio, seja Mastellone ou como se chama o agronegócio, o único argumento válido a ser utilizado pelo governante poderia ser o de: Senhores, moderem sua ganância e sua voracidade pelo lucro ou eles vão forçar você a fazer, o que eu, como funcionário público, deveria estar fazendo ...

Vamos continuar com essa ideia um pouco mais porque vale a pena desenvolvê-la. O que estou dizendo é que o Agronegócio expropriou do Estado a função reguladora que cabe ao Estado, e claro que a usa de forma bastante discricionária e em seu próprio benefício. O agronegócio é quem fixa o preço para o produtor, mas quando esse preço cai no portão, não quer dizer que vai descer na gôndola para o consumidor da cidade. Acreditar na inocência é a decepção em que muitos caem ... uns de boa fé e outros de péssimas intenções ... A relação não é mecânica, porque o agronegócio administra as cadeias agroalimentares, assim como os supermercados, e eles lidar com eles a seu critério. Eles são os proprietários de todos os links. Vamos ver se você entende: estamos jogando cartas com quem tem todas as cartas, as nossas também ...

O preço que cai no portão porque o Agronegócio decide, obriga o pequeno produtor a reduzir custos ou desaparecer, e isso significa incorporar o pacote tecnológico de grande escala que também faz parte do Agronegócio, ou pode significar incorporar família de trabalho que trabalha para alimentação ou incorpora trabalho escravo ou semi-escravo de países vizinhos. De fato, esta situação ocorre com os laticínios e La Serenísima, desde a ditadura de Onganía até os dias atuais, sem que o esquema se tenha modificado em tantos anos de democracia. Situação semelhante também ocorre com as retenções de exportação, em que a pequena não é discriminada se a soja sai como feijão que paga no dia 21 ou como óleo que paga no dia 5 ... o preço é sempre fixado pelo Agronegócio e pela o equilíbrio é sempre generalizado apenas para um lado. E o mesmo tem acontecido ultimamente com a carne, onde a queda no preço do animal vivo era deixada pelas geladeiras e intermediários, e não chegava ao consumidor a não ser em uma expressão mínima e apenas para encobrir as aparências e fazer o quê. .. ou seja, mostrar que a política empregada foi a correta, quando na verdade o agronegócio multiplicou seus lucros ...

Então, e repito: toda negociação de cúpula implica na imoralidade de se manifestar à cadeia do agronegócio que administra preços, algo assim: Senhores moderem suas cobranças ou serei obrigado a tomar as medidas políticas a que minha função me obriga e que eu não bebo porque prefiro continuar com o circo e preservar o modelo imposto e negociar com vocês que são como a raposa no galinheiro ...


O anunciado plano de pecuária nada mais faz do que reafirmar aquele modelo imposto na década de 1990. E também quero dizer que o Estado não tem neste momento nenhum instrumento para definir políticas para mudar esse modelo e nem mesmo para influenciar o que acontece nos mercados. Vejamos se não: ONCA não define políticas, mas é apenas um inspetor comercial. O SENASA, por outro lado, é fiscalizador sanitário e, claro, não define políticas. E depois? ... O National Grain Board e o National Meat Board, que foram extintos na era Menem, definiram, em vez disso, as políticas, porque regulamentavam o stock da pecuária, porque fixavam preços de apoio quando era necessário, mas também porque poderiam satisfazer aquela necessidade de participação dos produtores nas políticas, que é absolutamente legítima e que nos conflitos pecuários recentes surgiu como uma demanda entre outras que, seria bom atender em detrimento da liderança que as corporações têm sobre eles. ...

A supressão das exportações de carnes só tem favorecido o agronegócio e a extensão da agricultura de soja transgênica. Ou seja, uma má política do setor pecuário e além de suas intenções manifestas, que têm sido de baixar o preço da carne ao consumidor, acabou favorecendo os frigoríficos, ou seja, o agronegócio, que ficou com os leões. participa nas diferenças de preços na intermediação e, infelizmente, também tem favorecido o desenvolvimento de áreas maiores de soja, porque muitos pecuaristas que, desestimulados na produção, migraram para a agricultura industrial da soja.

E esta situação que descrevemos ocorre em um momento muito especial, quando importantes grupos de municípios da Província de Buenos Aires se reúnem pela primeira vez, para estudar alguma forma de deter o crescimento da soja que os tanques de plantio os ameaçam, impedir o fechamento das fazendas leiteiras e também da emigração para as cidades das populações de seus municípios. Esta sojização também ocorre, quando a resistência dos vizinhos à soja e à pulverização que a acompanha cresce em todo o país, e quando os médicos constatam diariamente uma catástrofe sanitária originada na agricultura industrial; que o câncer, as malformações, os abortos espontâneos e a diminuição da capacidade intelectual das crianças, se espalham como uma mancha de tinta por todas as periferias urbanas da Argentina, e que esta é a consequência óbvia dos venenos que acompanham o padrão da soja ...

Mas há mais para demonstrar o absurdo de certas políticas do que por engano ou omissão, elas acabam incentivando o modelo de Sojização. De fato, o agronegócio se tornou independente das políticas de Estado, impõe seus próprios modelos e interesses regionais no âmbito do MERCOSUL e não se preocupa com as alternativas político-eleitorais que se revelam aos governantes e partidários. Eles, o agronegócio, estão além dessas alternativas e eventos conjunturais, são eles que geram políticas públicas e que planejam o futuro de nossos países. Nada que o Governo possa fazer com sua anedótica de recompensas e punições e com suas medidas erráticas pode ofuscar o que as biotecnologias e os biocombustíveis exigem para o redesenho da próxima Argentina, projetos como a Hidrovia Paraná Paraguai e agora também a ferrovia Belgrano Cargas, melhor conhecido como trem da soja, com seus sete mil quilômetros de extensão, está nas mãos de Franco Macri e do chefe da CGT, o caminhoneiro Hugo Moyano.

Infelizmente, não só o Governo está refém do modelo do agronegócio da soja como também não consegue traçar uma política que seja capaz, pelo menos, de colocá-lo de volta em condições de administrar os tempos políticos e de desenvolvimento econômico. Os pequenos produtores também são reféns do modelo e os vimos hoje fazendo causa comum com as geladeiras que ensacavam as grandes fatias do bolo, tanto quanto fizeram nos últimos anos causa comum com as empresas de cereais, na alegação absurda contra as retenções que, justamente, eles nunca deveriam ter pago porque são retenções na exportação e não no produtor, mas são os exportadores que lhes transferem o tributo e são a tal ponto prisioneiros do modelo que, ao invés de se rebelarem contra o abuso flagrante dos exportadores, fazem causa comum com eles e em sua extrema confusão se rebelam e protestam contra o Estado ...

Não podemos ser ignorantes ou indiferentes a essas situações. Hoje o modelo rural se projeta de forma hegemônica sobre a Argentina como um todo, condicionando nossas vidas em todas as áreas sem exceção. O agronegócio nos impôs um modelo que leva inexoravelmente à geração de enormes territórios vazios, de um lado, e enormes conurbações incontroláveis, de outro. Um modelo de país em que colocar a agricultura industrial ao serviço da produção de biocombustíveis acarretará inexoravelmente um risco ainda maior do que os atuais: o de não haver alimentação suficiente para os argentinos. Continuar a enfrentar esse futuro temível sem reconstruir o Estado em seus instrumentos essenciais para a elaboração de políticas de intervenção, políticas que modifiquem o modelo da soja, limitem seus desenvolvimentos ou mitiguem seus impactos crescentes, não só será um gravíssimo erro político, mas também constituirá uma violação significativa da função do governo. Fazê-lo a partir de um pensamento meramente progressista nos equipara, aos irmãos uruguaios e à dolorosa tragédia de uma geração de lutadores sociais e revolucionários, que acabaram no país irmão sendo absolutamente funcional ao que sempre lutaram ou pelo menos declararam lutar. Se essa mesma tarefa fosse tentada na Argentina a partir dos símbolos do peronismo, estaríamos apenas acrescentando a mais cruel zombaria à combinação de falta de jeito e falta de consciência nacional.

* Jorge Eduardo Rulli
Grupo de Reflexão Rural
www.grr.org.ar
Editorial do domingo, 30 de julho de 2006, do Programa Horizonte Sur


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